segunda-feira, 20 de julho de 2026

Campeonato do Mundo CRI; Foto Yuzuru Sunada
Campeonato do Mundo CRI; Foto Yuzuru Sunada

Maastricht–Valkenburg: Um Contrarrelógio Marcado Pela Chuva e Pelo Destino

Passaram quase cinco anos desde a minha última publicação aqui no blogue. A vida vai avançando, mudam-se prioridades, acumulam-se projetos… e às vezes falta simplesmente aquele pretexto certo para voltar a escrever. Desta vez, o impulso veio de uma fotografia que o meu amigo Evandro Portela, brasileiro e ex‑colega de pelotão dos nossos tempos idos de ciclistas, partilhou comigo — uma imagem captada por Yuzuru Sunada, no Campeonato do Mundo de Contrarrelógio, entre Maastricht e Valkenburg, na Holanda. Um registo que me fez viajar no tempo e reviver um episódio tão cómico quanto trágico da minha carreira: 43,5 km de chuva, azar e aprendizagem.

A primeira impressão ao ver a foto foi a estranheza de me ver sem capacete de CRI — eu, que era obcecado com aerodinâmica e vivia em busca dos modelos mais “aero”. Depois, em catadupa, vieram as memórias de cada momento daquele dia.

Foi uma jornada digna de uma novela. Na noite anterior, como só corria da parte da tarde, decidi deitar-me mais tarde para evitar acordar demasiado cedo e tentar controlar aquela ansiedade típica dos grandes momentos. Mas às 6:00 da manhã, noc, noc… controlo antidoping. E não era o simples controlo de urina: era controlo sanguíneo.

Trinta minutos depois, com ambos os braços perfurados, regressei ao quarto na esperança de dormir mais um pouco. Missão impossível. Não restou alternativa senão levantar-me e fazer um treino ligeiro para aliviar a tensão.

Chegados aos momentos prévios, no aquecimento, mais indecisões: levo capas nos pés ou não? Tinha começado a chover, mas a temperatura estava aceitável. Decidi não levar as capas.

Inicio a prova e as sensações são boas. Sou incentivado pelos grandes amigos José Poeira e pelo mítico José Luís Algarra, preparador físico da Seleção Nacional e um dos grandes obreiros da revolução que o nosso ciclismo viveu naqueles anos — e nos que se seguiram.

Pouco antes da metade do contrarrelógio, o golpe de teatro: furo na roda da frente. Perco o controlo da bicicleta, cai não cai, e acabo fora da estrada. Valeu-me a berma em terra e as ervas, que me travaram e evitaram uma queda que parecia certa. Troca de roda, respirei fundo e segui — mas o dia parecia decidido a testar-me.

Entretanto, já tinha os pés completamente gelados — não os sentia. Relembrei a decisão errada de não levar as capas… mas siga, porque naquele dia tudo parecia conspirar para pôr à prova a minha resistência.

Desde o início do crono, a viseira do capacete embaciava sem parar. Já a tinha limpado três ou quatro vezes, sempre a perder segundos preciosos e, pior ainda, com a visibilidade reduzida ao mínimo. Nas curvas mais rápidas, a segurança estava claramente comprometida. Até que chegou o momento inevitável: retirei o capacete de contrarrelógio e atirei-o para a berma da estrada.

A visibilidade era praticamente nula e, naquele instante, a única decisão sensata foi tirá-lo. Importa lembrar que, naquela época, o uso do capacete ainda não era obrigatório. No entanto, na Holanda essa regra já estava em vigor — algo que eu nem sabia. E ninguém nos alertou para essa particularidade antes da prova.

Também convém recordar que os capacetes de contrarrelógio da altura ofereciam proteção mínima. Eram quase uma capa de fibra, pensados sobretudo para aerodinâmica. Tirei-o por segurança… e acabei desclassificado por infringir uma norma de segurança. Ironias do ciclismo. 🤣

Mais irónica ainda foi a forma como soube da notícia. Fui para a massagem e o José Azevedo, meu colega de seleção diz-me: — Quim, foste desclassificado. Eu começo a rir, convencido de que estava a brincar. — É verdade… — responde ele. E então explicam-me o motivo. Ri muito… só para não chorar.

A desilusão foi grande. Tinha passado cerca de um mês em estágio com a Seleção Nacional, entre treinos em altitude e competição no Giro di Puglia, em Itália. Sentia-me preparado, motivado, capaz de lutar por um resultado de destaque. Sem o furo, acredito que um top 15 estaria ao meu alcance. Assim, nem a consolação de terminar entre os 30 melhores do mundo.

O título mundial acabou por ser conquistado por Abraham Olano — e eu fiquei com uma história que, apesar de amarga na altura, hoje recordo com um sorriso.

Três dias depois, corri a prova de estrada, que não era a minha “praia” nem objetivo. Fiz o que pude, mas acabei por não terminar, numa corrida disputada sob um autêntico temporal de inverno, onde apenas 66 ciclistas concluíram, dos 153 que alinharam à partida. O vencedor foi o suíço Oscar Camenzind.

A fotografia do Sunada trouxe tudo isto de volta. E, com ela, a vontade de regressar a este espaço. É sempre bom revisitar estes velhos tempos — não para lamentar o que podia ter sido, mas para celebrar o caminho percorrido.

Até breve.

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